É chegado o tempo em que as lembranças permeiam meu cotidiano com mais vigor. Parece que os fatos não acontecem com a mesma emoção de antigamente. Esse envelhecimento precoce deve-se a essa vida turbulenta que levo (levamos), caótica, em que a busca pelo prazer imediato faz-se presente desde o usuário de drogas que encontra o bem estar eminente em contato com a química aos jovens que sentem-se satisfeitos apenas quando adquirem um iPad e, semanas depois, têm apenas mais um objeto obsoleto fazendo volume em casa. Graças a Deus das drogas nunca precisei, mas o iPad até que não é uma má ideia.
Meus pensamentos desejam me levar ao que era bom, à uma rotina sã, à uma época em que eu desconhecia fármacos, angústia, exclusão...
O frango por exemplo, o frango tinha gosto de frango, não de borracha. Idem para a carne de porco. O sabor atual me enjoa tanto que penso até em parar com as carnes. O chocolate era mais doce, as tardes demoravam mais para passar, a televisão mostrava-nos programas sensacionais, coloridos, cheio de vida. Até as novelas eram melhores.
O sorriso era mais presente no rosto das pessoas, a chuva era mais gostosa, molhava mais. O ar era limpo, os passeios de bicicleta eram aventuras que, se não homéricas, dignas de um roteiro de filme.
Eu era feliz!
Meu principal medo era topar com um fantasma no corredor de casa ou ser surpreendido pela loira dentro do espelho do banheiro. O ano durava meses, não dias. Os sábados, ah, os sábados... Tardes longas, ensolaradas, cheia de vida... Creio que até Deus em seu shabat sentava-se na Sua cadeira de balanço e Observava-me, do alto, a brincar no jardim de casa com bolhas de sabão. E ria.
Fazer casinha na caixa de fósforo para os tatus bolas e casarão para as lagartixas em caixas de sapato, tocar a campainha e sair correndo, brincar de fazer vulcão com massinhas caseiras e pintá-los com guache. Infância ab aeterno que não volta mais, momentos que não se repetirão; restam apenas flashes fugazes de lembrança.
Hoje, por mais que o dia seja perfeito (nunca é), sempre há a sensação de engasgo com uma bola de pêlo por dentro. As cores são mais acinzentadas, o tempo risca sua face e pinta seus cabelos. O amanhã é hoje, o começo já se foi.
Que Deus me conserve a memória...

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